TRAÇÃO DE ANIMAIS DEVE SER REGULAMENTADA OU BANIDA?

Li um comentário por aí… Sobre a lei nº 7194/16, que proíbe o uso de tração animal para transporte de carga e gente… “Regulamentar é uma coisa, proibir é surreal”… Vamos regulamentar exploração e escravização de animais agora? Mas o que é isso?

De onde foi que tiraram que nós, seres humanos, somos superiores aos outros animais por sermos racionais e que, portanto, podemos deles usar e abusar? Não somos iguais em nossas constituições físicas, em nossos hábitos, em nossa comunicação, nem dentro da nossa própria espécie, mas temos sim os mesmos direitos. Direito à vida, à boa vida. Direitos SIM inalienáveis. Não somos iguais, mas devemos agir em igual consideração de interesses, isto é, considerar a capacidade que o outro tem de sentir dor. Falta isso no ser humano: a consideração pelos outros animais (humanos ou não-humanos).

Li também que um leão não está tão preocupado com os direitos dos animais quando ataca e mata um veado. Mais uma vez, joguinho sujo de quem quer sabotar nosso “ecologismo barato”. Rsrsrs… É imputado aqui um falso objetivo ao veganismo: tentar moralizar também os animais não humanos. Os veganos não trabalham com a ideia de torná-los agentes morais tais como os seres humanos – mas sim apenas de considerá-los pacientes morais nas relações entre animais humanos e não humanos – nem com a de interferir na Natureza não humana exportando aos biomas um sistema ético que nenhum animal poderá entender. Aqui também está caracterizada uma falácia de redução ao absurdo, por tentar derrubar as ideias veganas prevendo uma improvável situação futura absurda ou ridícula resultante da concretização delas. Moralizar os animais não humanos nunca esteve nos planos dos defensores dos Direitos Animais. A moralização pretendida é direcionada apenas à própria espécie humana, no intuito de fazê-la reconhecer integralmente os animais não humanos como pacientes morais, sujeitos às consequências das boas ou más ações do ser humano. E, como estipula uma consequência absurda para tal fantasiosa hipótese, a afirmação também incorre na falácia de redução ao absurdo.

Li também: “obviamente não se aplica às baratas e aos camundongos, posto que não são bichos ‘fofinhos'”. Essa afirmação tenta ofuscar o fato de que os Direitos Animais não envolvem propriamente apego a alguns animais, mas sim o fim do tratamento de todos os animais, sejam quais forem, como propriedade. E tenta, por um bulverismo, “justificar” sua defesa pelos veg(etari)anos com o carinho de muitos destes – mas não todos eles – a animais ditos fofos.
Uma afirmação comum entre os carnistas mais conservadores é que a defesa dos animais por parte dos veganos só incluiria alguns animais, seria uma defesa especistamente seletiva. O que todo bom entendedor de Direitos Animais e veganismo sabe que não é verdade, visto que ambos defendem o fim do tratamento de qualquer animal, do mais “fofinho” ao mais feio e perigoso, como escravos sob propriedade humana. A afirmação também distorce a consideração moral dedicada aos animais não humanos pelos veganos, reduzindo toda uma convicção racional, empática e compassiva ao mero sentimento efêmero de “pena”.
Todos os animais são sujeitos de direito e, além disso, parte de uma cadeia importante que mantém o equilíbrio ecológico, portanto todos eles merecem respeito. As baratas são importantes para reciclar a sujeira produzida no planeta. O que acontece é que o ser humano cria cidades e lugares que diminuem as reservas naturais e os animais são obrigados a se adaptar às novas condições, vivendo em esgotos e sujeitos a servirem de hospedeiros a diversas doenças. Mas isso não significa que devam ser submetidos à maldade humana.

JURO QUE LI ISSO TAMBÉM: “Seres irracionais e amorais não têm direito algum”. OI?!?!?! Era o que os brancos europeus pensavam sobre os negros (tão desprovidos de alma…), era o que Hitler achava sobre as pessoas com deficiência intelectual (e daí realizou-se uma série de cruéis pesquisas científicas pelos médicos da SS)… Essa ideologia estabelece uma hierarquia moral extrema e visa a opressão e extermínio dos ditos “seres inferiores”. Pessoas que nascem com alguma deficiência intelectual, algumas às quais não podemos ensinar-lhes leis morais, continuam com seus direitos inalienáveis, e não poderia ser o contrário! Precisam sim ter seus direitos preservados!
A inteligência de um porco é comparada à de uma criança de três anos de idade, sendo mais inteligente até que a sua cachorrinha, a Katrina, mas, mesmo assim, você não gostaria de vê-la morta em cima do seu prato de jantar, não é mesmo? Argumento de superioridade da espécie NÃO CONVENCE.

LI E RELI PARA ENTENDER: “catadores de lixo precisam desses bichos [os cavalos] pra não passarem fome”.
Não é bem assim. Uma alternativa já pensada em Porto Alegre é o “Cavalo de Lata”, uma forma de melhorar e incentivar o trabalho dos catadores. De engenharia simples, manutenção econômica e ideia sustentável, semelhante a um carrinho de golfe, o protótipo evita o desgaste físico dos trabalhadores, já que é elétrico, e tem capacidade muito superior às carroças e carrinhos convencionais, suportando mais de 600 quilos. Além disso, substitui a tração animal e, consequentemente, acaba com possíveis maus tratos aos cavalos. E não pense você que isso seria caro demais: para cuidar de um cavalo, são necessários cuidados com a higiene do animal, alimentação (já imaginou quantos quilos de alimento são necessários diariamente, e quantas pessoas o catador poderia alimentar só com esses gastos?), saúde (se o cavalo ficar doente, é mais dinheiro gasto para que ele se recupere), espaço para que ele ande livremente e tempo para que se socialize com você. Qualquer coisa fora dessa realidade será considerada crime de maus-tratos.

“Já pensou que é pior para o próprio carroceiro violentar os animais, pois o animal passa a ser menos produtivo, e que, portanto, ele provavelmente só faz isso pq senão passa fome?” Não é o que tem se visto por aí. Olhe a imagem e me diga se isso também é justo. Eis abaixo uma leitura que possa esclarecer um pouco o que é ser responsável por um cavalo e quais os sinais que ele dá para que percebamos que ele está exausto:http://www.anda.jor.br/03/01/2016/morte-cavalos-exaustao

cavalo

Se existe fome no mundo, criança carente, crise na educação e na saúde, corrupção, guerra no Oriente Médio, adolescente escravizada na China, chacina de negros e pobres nas favelas, espancamento em travestis e homossexuais… uma causa não exclui a outra! É jogar baixo dizer que existem outros problemas “mais importantes” para resolver do que se preocupar com “meros bichinhos”. O veganismo não é seletivo justamente por considerar o sofrimento de todos: humanos ou não humanos, mamíferos ou insetos.
Mas, como alguém muito sábio já disse nesse mundo, não posso debater com alguém que não tenha lido as minhas referências. Então, está aqui a minha pequeníssima contribuição. Aos cavalos!

Sobre a lei: http://oglobo.globo.com/rio/uso-de-tracao-animal-para-transporte-de-carga-de-gente-proibido-no-rio-18444843

Sobre a morte dos cavalos por exaustão:http://www.anda.jor.br/03/01/2016/morte-cavalos-exaustao

Sobre o Cavalo de Lata: http://www.anda.jor.br/04/06/2014/cavalo-lata-vira-simbolo-catadores-porto-alegre-rs

E um guia de falácias carnistas, fáceis, obviamente, de serem refutadas: http://veganagente.consciencia.blog.br/guia-de-falacias-carnistas/#.VpasGvkrLIU

Minha opinião sobre a lei: Um pequeno passo em prol dos animais (mesmo sabendo que essa lei não tenha sido feita PARA eles). O turismo com cavalos de hotéis fazenda, pracinhas e pousadas deve acabar também, assim como a Polícia Montada e o uso em áreas rurais. Exploração nenhuma deve existir! O tempo da escravidão já acabou! Libertem seus caprichos carnistas com bases religiosas, pseudocientíficas e pseudohumanistas (que colocam o ser humano em primeiro lugar, não importam os meios) e interessadas no lucro.

A PAZ VERDE QUE MATA INOCENTES

Não é de hoje que observamos em organizações e institutos que se dizem sérios um emaranhado de incoerências em relação ao que querem propagar e ao que, de fato, propagam. E hoje venho aqui para falar sobre o Greenpeace (paz verde, em tradução direta).

 

Depois de três meses presa na Rússia, por participar de um protesto contra a extração de petróleo no Ártico, a bióloga brasileira Ana Paula Maciel retornou ao Brasil, em Porto Alegre, e logo declarou que estava com saudades de um “bom churrasco” e, do aeroporto, foi para uma famosa churrascaria da capital gaúcha comemorar sua volta.

 

Segundo matéria do jornal gaúcho Correio do Povo, “em seus planos estão o retorno ao ativismo em defesa do Ártico, mergulhar em Cozumel, comer uns churrascos com a família, praticar pesquisa científica com espécies em extinção, divulgar aos brasileiros a importância de preservar a Amazônia”. Peraí! Preservar a Amazônia? Comer uns churrascos?

 

Não é nenhuma novidade que a pecuária é a maior vilã da devastação da Amazônia. A ONU já declarou, em 2010, e reafirmou em 2013, que a pecuária é a atividade humana que mais devasta o meio ambiente e recomendou uma mudança global para dieta sem carne e sem laticínios. (Leia aqui (http://www.theguardian.com/environment/2010/jun/02/un-report-meat-free-diet). A monocultura da soja, usada para alimentar animais da pecuária no Brasil e em países da Europa e da Ásia, é outra grande causadora do desmatamento da região amazônica. Quem sabe, no mínimo, ler, entenderá que o consumo de carne e laticínios tem impactos desastrosos para o meio ambiente.

 

Ana, então, estaria agindo com grande incoerência ao viajar o mundo defendendo a Amazônia, o Ártico, as baleias, os ursos polares etc, e chegar ao Brasil e comer seu “bom churrasco”, contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa no planeta, desmatamento, desperdício de água, mortes de bovinos etc. Claro que isso não exclui sua coragem ao participar de protestos do Greenpeace em territórios hostis, mas, ter em sua alimentação carne, ovos ou laticínios e defender o meio ambiente em nome do Greenpeace… é contraditório. Como diz o site Vista-se, “Ambientalista que realmente vive o que diz precisa ser vegano”.

 

Com isso, a “Paz Verde”, se assim me permitem chamar, publicou em seu site e têm respondido no Facebook, a quem quer que discorde de suas ideias em relação à redução do consumo de carne, com esse texto, que vou pontuar pouco a pouco. Vejamos:

 

– “O Greenpeace defende uma redução drástica do consumo de proteína animal, não apenas para poupar a floresta e reduzir as emissões, mas também para a saúde humana. Uma dieta baseada em vegetais é melhor para a nossa saúde, para o nosso clima, para as nossas florestas, para os nossos rios e oceanos e para a segurança alimentar global”.

 

Nossa saúde, nosso clima, nossas florestas, nossos rios e oceanos, nossa segurança alimentar global… Oi? O que é da natureza, de fato? Uma dieta VEGANA (Greenpeace, não diga “baseada em vegetais”… Está com medo da palavra VEGANISMO?) é melhor, pura e simplesmente, para OS ANIMAIS, que aqui precisam encarar o fato de conviver com os animais humanos. Todo o resto (a saúde dos animais, humanos ou não-humanos, a redução de emissões de gases, o clima, a preservação das florestas, dos rios e oceanos), TODO O RESTO É CONSEQUÊNCIA de nossa postura ÉTICA em relação aos animais.

 

– “Mas comer carne é um pouco como o uso de combustíveis fósseis. Muitas pessoas acham que deveríamos pedir a proibição do uso de carros e aviões, mas nós sentimos que essa mensagem pode ser contra produtiva. Afinal, atualmente muito poucas pessoas estão de fato dispostas a abrir mão de usar o carro pelo resto de suas vidas, mas há um grande e crescente número de pessoas dispostas a usá-los menos. Da mesma forma, preferimos persuadir 10% das pessoas para reduzir pela metade seu consumo de carne ou evitar carne com graves passivos socioambientais, ao invés de tentar convencer 1% de pessoas a serem veganas”.

 

NÃO, Greenpeace, comer carne não é nem um pouco parecido com o uso de combustíveis fósseis. Já citei aqui o relatório da ONU, e agora, mais uma vez o cito. O professor Edgar Hertwich, principal autor do relatório, disse: “Produtos de origem animal causam mais danos do que produzir materiais de construção, como areia e concreto, plásticos ou metais. A biomassa e produções para alimentar os animais são mais danosas do que queimar combustíveis fósseis.” (http://www.anda.jor.br/05/06/2010/onu-recomenda-dieta-vegana-para-combater-mudanca-climatica). Isso quer dizer, no mínimo, que o assunto do consumo de carne é mais urgente do que o uso de combustíveis fósseis.

 

Sobre o fato de abrir mão, veja bem, isso é muito curioso, ao mesmo tempo que perigoso para algumas mentes que ainda não conseguem colocar a mesmos níveis de comparação animais humanos e não-humanos. Mas vamos lá: O que seria mais convincente, então, aos senhores de escravos? Reduzir o número de escravos em seus engenhos, ou abolir a escravatura? Sem dúvida, o senhor de escravos ficaria feliz em dizer que diminuiu o número de escravos em sua fazenda, e isso seria considerado uma verdadeira vitória para os abolicionistas. Contudo, isso não resolve, sob hipótese alguma, o problema da escravidão. Logo, consumir menos carne não indica melhorias REAIS nem no trato dos animais não-humanos, nem no problema socioambiental.

 

Outro ponto aqui, e o mais importante desses argumentos, é que quando usamos um carro ou qualquer outro meio de transporte que necessite de combustíveis fósseis, não estamos comprometendo diretamente vidas inocentes, ao passo que consumir qualquer alimento de origem animal causa a morte direta de milhões de animais por ano. Carros não têm famílias, não vivem em sociedade, não se comunicam, não sentem nem prazer, nem dor. Animais, por outro lado, são seres SENCIENTES, ou seja, têm consciência de sua sensibilidade. A senciência é definida como a presença de estados mentais que acompanhem as sensações físicas, inclusive a dor. Se vocês não conhecem, devem procurar saber quem é Gary L. Francione, que usa o conceito de senciência como o critério fundamental e suficiente para garantir direitos morais aos animais não-humanos. (http://www.anda.jor.br/10/06/2009/senciencia)

 

Ainda, não é porque o Greenpeace convenceria 10% das pessoas para reduzir pela metade seu consumo de carne ou evitar carne com graves passivos socioambientais, ao invés de tentar convencer 1% de pessoas a serem veganas, que ele deve defender a redução do consumo da carne, e não o veganismo. Uma organização que é voltada para as questões do meio ambiente e que diz trabalhar ferrenhamente em prol de TODAS as espécies de animais no MUNDO, não deve se dar ao luxo em “moderar” suas campanhas. Seria o mesmo que, para alguém que é ativista para e somente pelos animais, promover o consumo de carnes provenientes de fazendas que não usem gaiolas, por exemplo. Os animais continuarão morrendo, o problema continuará existindo, mesmo que os consumidores acreditem idilicamente que não promovem sofrimento àqueles animais. A postura deve SEMPRE se manter firme em sua filosofia moral, e não tentar atender aos caprichos da sociedade.

 

– “O Greenpeace não estabelece julgamento moral sobre a decisão individual de consumo. Focamos nossos esforços em pressionar governos e empresas a mudarem a forma como produzem, de modo a influenciar e movimentar toda a cadeia na direção de práticas menos nocivas ao meio ambiente e às espécies que o habitam. Por isso, nossa campanha não defende a eliminação total do consumo de carne e laticínios de uma vez só, apesar de reconhecer os benefícios de uma alimentação rica em vegetais e recomendar fortemente que as pessoas reduzam o consumo de carne até níveis seguros para a saúde humana e do planeta”.

 

Quando falaremos sobre a decisão individual dos animais para que se mantenham vivos? Sem julgamento moral, como convencer as pessoas que salvar as florestas é necessário para manter a vida de espécies, inclusive a nossa própria? O que os governos e empresas precisam saber é que estão DESTRUINDO tudo aquilo que a natureza faz. Falar sobre práticas menos nocivas ao meio ambiente e às espécies que o habitam é REDUCIONISMO. E ele não funciona! Reduzir o consumo de carne é LIMITAR-SE ETICA E MORALMENTE.

carne-ao-molho-madeira-greenpeace

O Greenpeace, essa semana, lançou a campanha “CARNE AO MOLHO MADEIRA”, perguntando à população se ela sabe de onde vem a carne que está em seu prato. Ativistas estavam nas lojas do Pão de Açúcar para exigir que a carne de suas prateleiras não custe a devastação da Amazônia, já que ele não garante isso aos consumidores. A campanha poderia ser reduzida a uma frase: “Pode comprar carne, desde que ela não venha do desmatamento e nem do trabalho escravo! ” Mais uma vez, a síndrome de Ana Paula Maciel volta à tona, sob o mesmo pano de fundo: NÃO EXISTE CARNE SEM DESMATAMENTO OU SEQUER TRABALHO ESCRAVO! Os bois precisam de um lugar para serem criados; a criação de bois aumenta a cada ano, sendo necessário mais espaço para sua criação; quase metade dos cereais produzidos vão para o gado, em vez de alimentar diretamente a população mundial e encher os pratos de gente que não tem o que comer; a água gasta para a produção da carne é absurda: para produzir 1 Kg de carne de boi, precisa-se consumir, pelo menos, quinze mil litros de água; enquanto que na produção de 1Kg de cereais, são necessários mil e trezentos litros de água, segundo relatório da UNESCO e FAO (Food and Agriculture Organization).

 

Sobre o trabalho escravo, ele parece ser muito relativo ao Greenpeace, já que criar bovinos, equinos, suínos, aves e tantos outros animais É TAMBÉM ESCRAVIZÁ-LOS até a morte.

 

E você, Greenpeace, sabe de onde vem a carne supostamente livre de desmatamento? Ela vem do ESPECISMO, da exploração animal, da ganância humana, do pseudo “bem-estar” do meio ambiente e dos animais!

 

Como pode a “paz verde” lutar contra a morte de dezenas de baleias, mas propagar a ideia de uma “carne sustentável”, que mata um boi, um porco e 185 frangos, isso só no Brasil, POR SEGUNDO? (https://vista-se.com.br/brasil-mata-um-boi-um-porco-e-166-frangos-por-segundo/)

 

A paz verde começa pelo prato! Enquanto não pusermos em nossas mentes que todo e qualquer uso e abuso de animais constitui SIM uma violência, uma guerra, não haverá PAZ VERDE, ou, como quiserem, GREENPEACE.

 

19 de novembro de 2015

SANTA HIPOCRISIA

tolerancia

O antropocentrismo, do grego άνθρωπος, anthropos, “humano” e κέντρον, kentron, “centro”, tem sua marca não apenas na época grega ou renascentista, mas também na Idade Média. De origem religiosa, especialmente bíblica, veio a legitimar a posição de domínio do homem sobre todas as criaturas e a natureza, não servindo sequer à toda a sociedade, mas sim a grupos privilegiados. E todos sabemos quem foram ou são os grupos privilegiados: o clero, os brancos, os europeus, os nobres, os senhores de engenho, os heterossexuais, a classe média etc. Esse conceito diz que o homem, ser dotado de inteligência superior, é excepcional entre as espécies denominadas burras e que o universo deve ser examinado de acordo com a sua relação com o homem, sendo que todas as demais espécies e seres existem para servi-lo.

Com isso, o antropocentrismo serviu para dizimar toda pessoa que agia contra a vontade de Deus, aquele de quem nós fomos feitos à sua imagem e semelhança. Queimar homossexuais na fogueira, guilhotinar mulheres livres, escravizar mulheres e homens negros e catequizar os “selvagens” indígenas; tudo isso fazia muito sentido dentro da tentativa de moldar o ser humano simplesmente por sua vaidade. E no que diz respeito à dominação do homem sobre a natureza, animais são explorados e mortos, árvores são derrubadas, rios são poluídos, combustíveis fósseis são consumidos como se não houvesse amanhã; tudo com o objetivo de conquistar benefícios estritamente humanos, de promover o lucro de empresas humanas, de satisfazer a ganância, também humana.

O fato é que esse mesmo antropocentrismo que fez tantos negros, indígenas, homossexuais e mulheres sofrerem, serem violentados, explorados e assassinados, é usado por esses mesmos grupos em relação aos animais e ao restante da natureza. Nesse ano em abril, alguns ativistas veganos fizeram uma manifestação em Porto Alegre, ao mesmo tempo em que deputados da Comissão de Constituição e Justiça analisavam um projeto de lei que pede a proibição do sacrifício de animais em rituais religiosos de qualquer religião. Eles fizeram uma simulação desses sacrifícios, com velas, pipoca e um pano vermelho. Os ativistas se deitaram no chão, envoltos em um líquido que imitava sangue e pediam o fim da violência contra os animais. Houve quem dissesse que aquele tipo de manifestação estava desrespeitando as religiões de matriz africana, que aquilo era um exemplo claro de intolerância religiosa. Afinal, “como assim, você, branco, quer impor sobre a minha religião o que podemos ou não fazer ou sustentar?”

Por outro lado, tivemos nessa semana, na Avenida Paulista, alguns representantes da 19ª Parada do Orgulho LGBT usando itens das religiões cristãs como uma forma de manifestação e repúdio a algumas concepções e atitudes dentro dessas instituições religiosas. Viviany Beleboni, militante transexual, se prendeu a uma cruz, encenando o sofrimento de Cristo, para representar a agressão e a dor que a comunidade LGBT tem passado. Nesse caso, também houve gente dizendo que isso era um absurdo, intolerância religiosa, um desrespeito à imagem de Jesus. Contudo, algumas mesmas pessoas que abraçaram as atitudes da comunidade LGBT foram as que atacaram ferozmente a manifestação dos ativistas veganos, usando o mesmo tipo de discurso dos que criticaram as ações dos militantes da Parada.

O antropocentrismo, apresentado aqui como a dominação do homem e sua ganância, veio destruir tanto os próprios integrantes da espécie humana quanto o “restante” da natureza, e parece que a única santa que os seres humanos têm cultuado é a Hipocrisia. Se no protesto em prol dos animais em Porto Alegre houve intolerância religiosa, no protesto pela comunidade LGBT em São Paulo também houve, ambos pelo uso de objetos pertencentes à determinada instituição ou segmento religioso. Porém, se em um caso a manifestação pode ser aceita, pelo fim da homofobia, no outro caso deve ser reconhecida, pelo fim do especismo. Não se diferenciam em nada as duas manifestações, se elas repudiam a violência da mesma forma, seja ela contra a comunidade LGBT, seja ela contra os animais.

ÉTICA NA ALIMENTAÇÃO

ÉTICA? ALIMENTAÇÃO?
E não é que combina?
Peter Singer¹ explica pra gente a relação da indústria alimentícia, e o que comemos, com a ética não só dos animais não-humanos, mas também dos humanos em situação de pobreza extrema e fome. O filósofo, utilitarista², afirma que devemos acabar com o que ele define como “especismo“, o pensamento de que uma espécie tem total poder de dominação sobre outras espécies. O bem da coletividade, para ele, deve incluir também os animais não-humanos.
Clique na imagem e confira seu discurso sobre a ética na alimentação, promovido pela TV Cultura no programa Café Filosófico.

peter

1 Peter Albert David Singer é um filósofo e professor australiano. É professor na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Atua na área de ética prática, tratando questões de Ética com uma perspectiva utilitarista. Sua obra de maior sucesso e polêmica foi o Animal Liberation, de 1975.

2 O Utilitarismo, em poucas palavras, é uma doutrina que afirma que as ações são boas quando tendem a promover a felicidade do maior número de seres e más quando tendem a promover o oposto da felicidade, ou seja, atua com o princípio do bem-estar máximo.  Jeremy Bentham e John Stuart Mill foram os pioneiros a sistematizarem o princípio da utilidade e conseguirem aplicá-lo a questões concretas.

COMO AJUDAR CÃES E GATOS DE ONGs

SOS ANIMAIS
– adoção responsável;
– ajuda financeira, com depósitos na conta da ONG;
– doação de jornais e papelões, potes plásticos e cobertores;
– doação de materiais de limpeza (sabão, detergente, pano de chão, vassoura, rodo…);
– doação de produtos de higiene (shampoo, sabão de coco, toalha, luvas cirúrgicas…);
– doação de ração e alimentos para cães e gatos;
– doação de remédios usados ou não;
– visitação à ONG para limpeza dos canis e dos gatis;
– carona voluntária nos finais de semana para o passeio com os cachorros e para as campanhas de adoção;
– lar temporário em sua casa para algum animal, geralmente filhote, que não tenha condições de ficar na ONG, até que se consiga um dono;
– ajudar na divulgação dos animais para adoção no Facebook e em outras redes de compartilhamento;
– promover o pensamento de que ADOTAR traz muito mais benefícios aos animais do que comprá-los em canis e lojas.

PESQUISE, PROMOVA DEBATES, AJUDE!

PARA MAIS INFORMAÇÕES: sozed.wordpress.com